Tramas do sucesso II

3:31 PM

Desde os últimos dias eu só consigo visualizar o que antes era um muro colorido, uma parede enfeitada exteriorizada da minha alma, por um muro cinza. Seria simples demais se eu pudesse controlar como controlo meus objetos, rotina, roupas, ou pelos conselhos de todas as partes, como se estivessem me dando uma fórmula e pronto – “resolva!”. Eu poderia falar, falar, falar, mas no fundo a vontade é de ficar calada mesmo, ou falar apenas telepaticamente, como se assim quem eu quisesse que escutasse, me ouvisse mesmo. Ao menos eu sei que as melhores coisas não precisam se ditas para serem entendidas, pertence a mim, seja lá o que passou e ainda mora aqui dentro, pertence a mim e eu não faço questão de expulsar. É estranho observar que eu, logo eu, tão cheia de esperança, otimismo e sensatez, me esqueci de como me sentir bem, quando digo bem é no sentido literal, ver tudo de forma harmônica e suave. Esqueci de como continuar, e isso soa como uma afronta pessoal. Eu poderia aderir à postura de expor uma conduta ótima, inabalável e “maquiar” qualquer marca e qualquer registro do que algum dia já esteve em plena pele. Eu poderia ouvir todos os adoráveis conselhos, mas devo admitir que adoro falar, expor minhas lamentações, mas odeio conselhos, odeio que me digam a forma de se fazer o que só eu conseguiria (consigo). Quanto mais ouço, quanto mais me apego a qualquer “semana passada, mês passado, dias passados”, mais vontade eu tenho de mostrar, marca por marca, a carne viva... Ai eu lembro que no fundo ninguém pode estar no meu lugar, ninguém pode alterar qualquer pedaço. Às vezes as maiores dores não são aquelas causadas pelos tapas, gritos, defeitos, erros; são pelos dias de sol, as tardes, os sorrisos, as imagens. Não conheço ninguém que se apegue a lembranças ruins, a gente se queixa pelo que sobrou de bom, sobrou porque não é ignorável, sobra mesmo. E pensando melhor, a dor maior ainda nem é essa, é pensar que todo corte sara, e um dia a carne viva se fecha, a marca se fecha e pode não doer mais, pode passar despercebido. Eu juro que sinto medo de não sentir, porque pior do que doer ou não doer, é simplesmente nem sentir, como se tivesse tido alívio imediato, ou melhor, apagado. Apesar dos pesares, sempre fui uma pessoa nostálgica, dada e boas lembranças e as mágoas passam longe de mim, felizmente! No início qualquer mudança causa espanto, receio, me da vontade de encher o tal muro interior de todas as cores e misturar, só para ver se consigo refazer o que era antes... Mas é assim mesmo, nenhuma pintura é igual a outra, o que resta é a lembrança do bom trabalho realizado, e essa ninguém tira. Acho que tudo na vida, absolutamente, é uma questão de paciência.

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