Meio do avesso

10:50 AM

Há alguns dias fiquei pensando no nosso quarto escuro, em como nós precisamos desse ambiente, inabalável e inatingível. Por mais que eu defenda bastante o jogo limpo, a honestidade dos sentimentos, clareza... Eu defendo esse lugar invisível, que vou chamar de quarto escuro ao decorrer do texto. É um lugarzinho aconchegante, o único que podemos ser nós mesmos e permitir que passe todo e qualquer tipo de pensamento sem julgamentos, sem represálias, nosso espaço interno. A importância de ser honesta (o) é trivial para as relações sociais, seja qual for, mas o quarto escuro é fundamental para nosso próprio bem estar. Se ainda não ficou claro, é aquele espaço invisível que cabe tudo o que não podemos e nem devemos expor por aí, por cuidado, proteção e até defesa. Somos muito, muito mais do que só o observável, por dentro existe um leque de informações inimagináveis, e isso é maravilhoso... É nossa privacidade, mesmo se tratando de sentimentos. Sou bastante falha em relação à intensidade que me exponho emocionalmente, a linha tênue entre expor muito ou me resguardar, às vezes, me deito com a sensação de que podia ter me limitado, guardado um pouco do foi dito. De qualquer forma, talvez algumas coisas aconteçam porque precisam acontecer, como um determinismo. Mesmo nessas situações em que eu falo demais, demais do que poderia ter sido, ainda assim eu encaixo coisas apenas dentro de mim, no meu quarto escuro... E é lindo, porque sinto um turbilhão de sentimentos como medo, ansiedade, alegria, euforia, dedicação, tanta coisa diferente e ao mesmo tempo eu, humana. Não me julgo uma fraca por isso, pelo contrário, precisamos aprender a honrar até nossas características, por mais incômodas que sejam. Um dos medos mais comuns é olhar-se por dentro, como se fosse um espelho – essa sensação nos coloca frente a frente a situações que tanto evitamos pensar, mesmo que ninguém veja ou ouça a voz que ecoa em nossas cabeças. A grande importância que sinalizo é que, não precisamos fugir de nós mesmos ou nos envergonhar por sentir... Sentir é a prova de que não somos parasitas, somos formados por variações internas, externas, diversas, que compõem nosso eu. O tal quarto escuro é a liberdade de sentir, resguardar tudo aquilo que não precisamos expor, por mais bonito que seja, é só nosso! Todos nós somos imprevisíveis, sem exceção, temos reações e sensações que por mais dedutíveis que pareçam, são particulares. Apreciar o que temos de melhor e possivelmente nos resguardar é essencial para uma vida tranquila, pois não se trata de um jogo, mistério sem motivo ou introspecção, é só nossa liberdade de, por alguns instantes, pertencer a nós mesmos sem pudor.

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