Unilateral

12:53 PM

Essa noite eu sabia que algo aconteceria, como todas as outras vezes parece que sempre há um aviso prévio me recomendando pra me preparar... E eu nunca estou pronta. Não sei explicar como isso acontece, mas eu sempre sinto, sempre sei. Se ontem eu tivesse permanecido por um minuto, somente um minuto a mais no local que eu estava, teria evitado ver, sentir tudo que eu sempre evito... Talvez a ironia da vida seja essa, a gente evita tanto que uma hora ela nos força a encarar, mesmo sem querer, não há opção. Então foi assim, por alguma razão eu não permaneci nesse minuto que teria feito total diferença, eu segui, e o vi, vi o que eu evitava tanto. O grande problema não é só sentir na ausência, é perceber que só em avistar, perto ou longe, tudo que eu finjo que não sinto vem à tona. Outra ironia, eu estava perto demais, numa distância tão próxima e tão distante, exatamente atrás dele numa distância de centímetros. Às vezes brinco conversando sozinha com minha vida, como pode num lugar tão grande, entre tantas pessoas, horários, enfim, conseguiu coincidir o que eu tanto evito, me fez estar ali atrás, mesmo sem que ele percebesse, como talvez nas outras vezes que o vi. Eu converso com mim mesma “poxa, se eu demorasse um minuto, se eu não tivesse olhado pra esquerda, se eu não tivesse ido por esse caminho, se, se...”. Durante o momento que isso acontecia minha vontade era gritar, em meio ao silêncio sem escolha eu só queria gritar, acabar com essa angústia de saber que é tão perto e tão longe. Como manter uma paz interior se teoricamente não existe mais, mas de onde realmente deveria ter morrido não morreu? Eu gostaria de arrancar de dentro de mim, como se fosse possível arranjar uma pá e cavar, o mais fundo possível e tirar o que ainda mexe tanto comigo. Talvez por egocentrismo, egoísmo ou só sofrimento eu não consigo dividir essa dor, parece (e acredito) que seja só minha, é unilateral. Eu infelizmente sou a mais prejudicada nisso tudo e me cobro dia e noite por isso... Por ter todos os motivos para ter virado a página, no entanto permaneço segurando cada pedaço do que me foi arrancado à força, com medo de que possa machucar mais ainda. Olha a loucura disso! Eu me cobro! Me culpo por não ser fria, por não ter aprendido a usar aqueles mesmos olhos, frios, que disfarçam tão bem qualquer sentimento, que não se revelam. Se por um único instante eu pudesse trocar de olhar com ele, faria. Gostaria de olhar a mim mesma com seus olhos e que ele enxergasse com os meus. Quem me dera aprender a domar meus olhos, que recebem tantos elogios por aí por serem expressivos, mas só seu sei o preço que pago por eles, vivem me traindo. Nunca aprendi enquanto eram flores, acho que não aprenderia agora. Sabe aquela pose de inabalável que eu sempre dizia? É essa pose que me causa inveja. Em meio às vozes dentro da minha cabeça me chamando de fraca por não saber atuar assim, outras vozes, mais baixinhas, conseguem soprar juntas que de fraca eu não tenho nada! Eu tive e tenho um coração que soube amar e que não sofre de amnésia. Quem sabe um dia essa vida que vive de ironias comigo me presenteie, me permita interpretar essa mulher inabalável, que mesmo de fachada aparente só frieza... Mas até lá, eu vou honrando essa criatura que não frequentou escolas de interpretação. Vou honrar o coração.

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3 comentários

  1. Se permitir sentir desse jeito significa que você está viva, e isso de certa forma é bom! O que não pode, e nem deve, é acabar voltando pro mesmo lugar que você sozinha conseguiu sair. Acho que o tempo está se encarregando direitinho de você, aos poucos você vai esquecer sem se dar conta disso, e quando menos esperar, a vida lhe envia um presente. É assim que funciona, o ser humano de coração e alma tem o direito de ser feliz, pelo menos, mais uma vez...

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  2. Muito bonita a suas palavras e a forma que você escreve.Mesmo sentindo uma ponta de sofrimento na suas palavras fica tudo muito limpo e eu sei bem o que vc sente por que também estou passando por uma coisa parecida, por isso mesmo faço do meu blog um diário invisivel para os outros na forma de não me mostrar mais bem forte pra mim.
    Beijos

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  3. você escreve lindamente! Li com completa atenção, e me identifico muito com alguns texto! Até imaginei um livro mesmo sendo exagero.

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