O dragão virou moinho de vento

3:28 AM

Tentei pensar numa boa história ou numa história real disfarçada, numa reflexão qualquer, mas meus processos criativos estão muito modificados e direcionados para outros fins. Não posso dizer que a moça que já fez milhares de textos perdeu sua sensibilidade, nada disso... Eu só me transformei. O que poucas pessoas sabem é que nenhum texto bonito nasce sem inspirações muitas vezes doloridas, sólidas, palpáveis, ao menos os meus, não. Sou da tribo dos intensos, dos que têm febre, sentem do fio de cabelo aos pés. Normalmente só conseguia produzir depois da cólera, de chegar nos meus limites, de canalizar toda agressividade. Aqui dentro existe uma energia de fogo muito forte, em constante movimento, e é por isso que tenho tanta necessidade de vomitar palavras. De alguma forma meio milagrosa, talvez de tanto pedir a Deus e ao universo, encontrei um equilíbrio. Aos poucos sei o que fazer com as frustrações, agressividade, força, tudo que surge aqui dentro, e redireciono. O que antes me causava febre, desejo incontrolável de externar, hoje me entristece em alguns casos, mas dou de ombros... Não afeta tanto. Tudo é passageiro, entende? Tudo, do melhor ao pior. Minha necessidade de gritar ao mundo se transformou numa necessidade de me silenciar, me recolher, e conversar intimamente com um único ser que me conhece em cada detalhe. Sempre pedi por luz, por paz de espírito, por sossego nessa alma tão inquieta com várias coisas, e acho que fui ouvida. Quando tomamos consciência de que a impermanência é que move nossos desejos, que nos faz valorizar cada momento e aprender diariamente, percebemos que tudo é uma questão de aceitar e agradecer. Agradecer porque as coisas acontecem da forma que precisam, nem sempre da forma que queremos. Isso é uma grande sorte! Acho que só agora comecei a perceber que estou nadando a favor da correnteza, não contra, isso é bastante cansativo. Atingi um equilíbrio, amor e cuidado tão verdadeiros comigo mesma que, não sou capaz de me afetar tanto a ponto de ter essa chama me queimando por dentro e causando tanta cólera como era de costume... Isso é crescimento, maturidade, e principalmente, gratidão à uma sabedoria muito superior a minha. A sensibilidade nunca deixará de existir em mim, mas aprendi a ser brisa leve, e não permitir que minha paz seja perturbada. Isso é encantadoramente assustador.

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1 comentários

  1. Muito bom!
    Minhas preces diárias ainda são nesse sentido: paz de espírito, sossego nessa alma e, principalmente, calma e paciência para entender que tudo tem a sua hora e seu propósito. Ainda estou caminhando, mas creio que, em breve, as coisas aqui dentro irão se aconchegar.
    Maravilha de texto Raíssa!

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