Caça e caçador

3:45 AM

Começo esse texto admitindo um desejo visceral de falar sobre nossos boicotes de todos os dias, de alguns meses, de autossabotagens que mantemos por uma vida inteira. Vamos levando a vida num modo automático sem perceber que a raiz de alguns problemas e insatisfações são criadas por nós mesmos a cada vez que nos ajustamos em locais inapropriados, construímos e descontruímos nossa própria imagem para melhor se adaptar para algo ou alguém. Não há problema em ser flexível, o problema é quando nos perdemos, saímos do real e passamos a ser uma fonte de expectativas demasiadas dos outros e de nós mesmos. Quantas vezes sustentamos situações desagradáveis porque estamos numa busca desenfreada por um objetivo? Quantas vezes percebemos tarde demais que o tal objetivo não valia tanto esforço? É curioso observar que sempre queremos dos outros coisas que as vezes não existem em nós. Respeito é importante, mas poucas vezes nos tratamos com respeito. Seja por comodismo ou por querer impressionar alguém, muitas vezes, nos vemos diante de situações desconfortáveis, não há desejo real de agir daquela forma, não traz conforto... Mas fazemos. Por que? É importante se questionar, se perguntar qual é a motivação e se está valendo a pena. É impossível ter uma satisfação e felicidade de modo geral quando não estamos sendo reais. Ao tentar caber num espaço, num universo do outro tendo de comprimir cada pedaço próprio, escondendo aqui e mostrando um pouquinho ali, se esforçando para mostrar o óbvio que existe em você, no final das contas, gerará um cansaço que provavelmente não trará a sensação que você tanto almejou. O problema começa quando você precisa se esforçar. As coisas reais não necessitam de esforço, elas são espontâneas e encantadoras por si só. Devemos ter em mente que, inicialmente é natural que tenhamos o desejo de nos mostrar, mostrar quem somos, mas isso deve ser feito por nós... Nunca, jamais, para ser o que o outro espera. A história da metade da laranja pode ser interessante, mas o fato é que não devemos nos conformar com esse discurso de ser metade. Somos inteiros. Ser inteiro não significa que não precisamos de alguém, significa que se estamos à procura ou com alguém é porque queremos, pura e livre vontade. Devemos tomar cuidado e nos amar, nos respeitar, para entender desde cedo que a percepção que temos de nós mesmos é fundamental no caminhar. Não é nossa culpa se o nosso melhor não serviu para manter aquela pessoa por perto, por exemplo. É um exercício diário mentalizar que não devemos nos culpar tanto ou impor nossa presença para caber em espaços pequenos, inexistentes as vezes. Desfaça suas armadilhas, seja real! No momento em que assumimos nossa responsabilidade em cada ação, temos a percepção clara do que é nosso papel e do que é do outro e só assim nos sentimos bem. Saibamos lutar pelo que queremos, por quem queremos, pelo sentimento que queremos, mas sem nos agredir, nos diminuir. Nossas relações são reflexos de como nos mostramos, e principalmente de como nos tratamos. Nos amar e nos respeitar é não colocar em nossos ombros fardos maiores do que podemos carregar. Repito, seja real.

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